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sexta-feira, 18 de março de 2011

As sem-razões do amor

    Alguma poesia

      As sem-razões do amor
    Eu te amo porque te amo.
    Não precisas ser amante,
    e nem sempre sabes sê-lo.
    Eu te amo porque te amo.
    Amor é estado de graça
    e com amor não se paga.

    Amor é dado de graça,
    é semeado no vento,
    na cachoeira, no eclipse.
    Amor foge a dicionários
    e a regulamentos vários.

    Eu te amo porque não amo
    bastante ou demais a mim.
    Porque amor não se troca,
    não se conjuga nem se ama.
    Porque amor é amor a nada,
    feliz e forte em si mesmo.

    Amor é primo da morte,
    e da morte vencedor,
    por mais que o matem (e matam)
    a cada instante de amor.


    Carlos Drummond de Andrade

    segunda-feira, 7 de março de 2011

    Considerações sobre o amor

    Idealismo

    Falas de amor, e eu ouço tudo e calo
    O amor na Humanidade é uma mentira.
    E é por isto que na minha lira
    De amores fúteis poucas vezes falo.

    O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
    Quando, se o amor que a Humanidade inspira
    É o amor do sibarita e da hetaíra,
    De Messalina e de Sardanapalo?

    Pois é mister que, para o amor sagrado,
    O mundo fique imaterializado
    — Alavanca desviada do seu fulcro —

    E haja só amizade verdadeira
    Duma caveira para outra caveira,
    Do meu sepulcro para o teu sepulcro?!


    Augusto dos Anjos